CO-LABORAÇÃO NEOTROPICAL
Vamos andar de galera, invadir as estações e nos tornarmos nós mesmos?
A cada ciclo, nossa percepção de desenvolvimento da vida ganha uma nova chance. Podemos olhar para os jardins que plantamos e observar os seres se adaptando: folhas caindo, plantas murchando sob o calor intenso e outras vibrando justamente pela abundância de luz. Estamos no verão, estação da intensidade. No Neotropical, estação das cores, de corpos ao sol, de praias, de muita água. No Brasil, então, é água que não acaba mais. Ainda assim, depois de centenas de anos, seguimos mal preparados para lidar com tamanha abundância da Natureza. Seguimos mais como cigarras do que como formigas, tocando um sambinha enquanto o Carnaval não chega.
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do BoulevardAi que vida boa, ô lêrê
Ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passarVai passar - Chico Buarque
Aprendemos a surfar enxurradas. A sorrir uns para os outros mesmo em qualquer situação. Somos povos da vida. Como dizem os costa-riquenhos: Pura Vida1. Nossa alegria, nossa capacidade de adaptação, nosso jeito coletivo de existir são parte do nosso fenômeno cultural.
Talvez por vivermos em abundância, ainda reflitamos pouco sobre os tsunamis que já chegaram, e os que ainda virão. Mas, como tenho dito, é melhor aprendermos a surfá-los, como fazemos nas enxurradas.
Esse contexto de fenômenos, como tudo na vida, carrega polaridades. E é aqui que entra um exemplo simples, quase lateral, mas ilustrativo. Em Pluribus2, série recente da AppleTV, vemos o contraste entre soluções impostas de cima, projetos fechados de felicidade coletiva, e resistências individuais que acreditam poder sustentar o mundo sozinhas. A série não nos pede que escolhamos um lado, mas que observemos o custo de cada escolha. Quando falta colaboração, seja na imposição do coletivo uniforme, seja na recusa solitária, a vida paga um preço. É só um lembrete: nenhum caminho é neutro quando pensamos em humanidade.

Talvez por isso, em um momento atravessado por tantos tsunamis simbólicos e reais, escolhemos a COLABORAÇÃO como tônica do NOUS.
Todos os anos definimos um tema interno para guiar reflexões e práticas de quem labora conosco. Este ano, e provavelmente nos próximos, decidimos compartilhar essas tônicas com você. Porque faz mais sentido refletirmos juntos sobre como conduzir nossas jornadas. Escreveremos sobre a colaboração e como integrá-la nas práticas, na consciência e no contexto.
E falar de colaboração a partir do Brasil é falar de algo que já corre em nossas veias. O Brasil é coletivo por natureza. É roda, é mutirão, é gambiarra inteligente, é vizinho que ajuda, é festa que só existe porque é junto. Nosso chamado Brazilcore não é estética vazia: é reconhecimento de um modo de existir onde diversidade, mistura e convivência são forças estruturantes. Colaborar, aqui, não é moda corporativa, mas sobrevivência histórica, cultural e biológica.
Voltando ao nosso lugar: estamos no Neotropical, Brasil, bioma Cerrado. Enquanto escrevo, a temperatura amena de fim de tarde vem cheia de umidade, com nuvens enormes que parecem montanhas do Himalaia. Para mim, é uma das épocas mais bonitas do Cerrado. Nosso céu-mar, com enormes montanhas brancas que no fim de tarde ficam alaranjados, cortadas por raios de sol dignos de quadros românticos europeus - que veem isso uma vez na vida e outra na morte. Aqui, acontecem por meses. E nesse momento tão especial, refletir sobre colaboração pede atenção.
O Cerrado, em sua diversidade, vive agora o acúmulo de seus aquíferos, as caixas d’água do Brasil. É tempo de armazenar, de criar reservas. As plantas, acostumadas aos ciclos de escassez e abundância, aproveitam para florescer, disseminar, eclodir e plantam suas sementes enquanto a vida gera sua prosperidade.

E toda essa emanação requer a compreensão dos limites. Pode parecer contraditório, mas crescer sem prudência nos leva à ostentação, ao desperdício, à arrogância no sucesso e à raiva no fracasso.
Colaborar nos ajuda a reconhecer limites. Os nossos e os do outro. Nos ensina quem somos e como podemos contribuir. O mesmo vale para os negócios, para projetos, para organizações. Temos refletido sobre a morte dos negócios e suas ciclicidades. Começar o ano com abundância requer cuidado. Não basta surfar enxurradas se não aprendermos a construir reservas e, principalmente, formas de aprendizado. Precisamos estar prontos para os ciclos. Desenhar formas de tratar cada estágio e momento de escassez e prosperidade. Crescer é natural à vida, mas não existe desenvolvimento vivo sem a CO-LABORAÇÃO.
Segundo Emanuele Coccia, o mundo não é um espaço de isolamento, mas de mistura universal, onde “tudo está em tudo”3. A vida é definida pela circulação e pela capacidade de interpretação entre os seres e o ambiente. Viver é viver da vida dos outros e criar atmosfera para os outros. Co-laborar, trabalhar junto, pode ter um sentido mais profundo. Talvez precisemos mudar de “aprender sobre a natureza” para “aprender com a natureza”. Isso pode transformar integralmente nosso comportamento.
A colaboração, a partir do nosso momento e das necessidades globais, é um atributo que provoca o status quo, ressignifica a forma de nos relacionarmos. Nisso, os Neotropicalezes são demais. Quer lugar mais acolhedor e genuíno que o Brasil e nossos territórios irmãos? Aqui, colaborar é atributo humano e biológico. Está na comida, na música, na diversidade, nas adversidades.
Nesse tempo de abundância de luz, de plantio das sementes, de intensa vitalidade com enormes fluxos de água, convido você a laborar conosco este ciclo - o que os Incas chamavam de Capac Raymi (ou Qhapaq Raymi4) - e passar por esses meses a partir de novos pontos de vista: nos recusamos a chamar de Janeiro (Deus Janos, utilizado para o inverno) Fevereiro (Februarius, limpeza para renascer, vir a primavera), porque estamos passando o verão e indo para o outono. Temos que ver as sementes plantadas gerarem seus frutos para colhermos.

E convidar, aqui, não é um ato de cortesia fugaz, mas um pedido de ajuda. Não construímos nada verdadeiramente consistente se não for com o outro.
Me lembro de quando li o livro Eu e Tu, de Martin Buber, e fiquei estupefato com a simplicidade que tratava a dimensão do outro como uma condição de evolução da humanidade. Para ele “O homem se torna Eu na relação com o Tu”.
Precisamos de você e você de nós. Bora laborar juntos um ano melhor. Queremos te escutar e trocar visões de mundos e territórios.
Queremos estar nos seus espaços e saber como você vive. Queremos e precisamos andar de galera, a galera do NEOTROPICAL. A galera que quer ser radical nas transformações positivas para nós e o planeta.
Bora?
Pura Vida!
Coluna Conversa para o Futuro por Daniel Mira.
Revisão por Larissa Guedes.
“Pura Vida” é a filosofia de vida central da Costa Rica, além de uma saudação: é um estilo de vida focado em otimismo, simplicidade, gratidão e valorização do momento presente. Os costarriquenhos (”Ticos”) utilizam a expressão para demonstrar uma atitude descontraída, eco-consciente e positiva diante da vida, priorizando o bem-estar e a felicidade, mesmo diante de dificuldades.
“Pluribus” (Apple TV+, 2025) é uma série de ficção científica criada por Vince Gilligan, focada na autora Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma das poucas pessoas imunes a um vírus extraterrestre que transformou a humanidade em uma mente coletiva pacífica e feliz. A trama acompanha a amarga protagonista tentando “salvar o mundo da felicidade” e manter sua individualidade.
"A Vida das Plantas: Uma Metafísica da Mistura" (2018) | Redefine o mundo vegetal não como fundo passivo, mas como agentes ativos que criam atmosfera e fundem terra e céu. A obra propõe que, ao compreender as plantas e sua capacidade de mistura, compreende-se a própria estrutura do mundo e a vida.
O Cápac Inti Raymi (Qhapaq Inti Raymi) é uma festa religiosa inca em homenagem ao Sol, que acontece no mês de dezembro . Corresponde ao décimo segundo mês do calendário inca.





Vamo de galera!! Bora!! Pura vida!!! <3 Tuko Pamoja (tamo junto em Swahili) ;)