“We are America”
Como o Bad Bunny abriu os olhos ao que é natural para nós?
Ahora todos quieren ser latinos
No, ey, pero les falta sazón
Batería y reggaetónEl Apagón - Bad Bunny
Seja com a cadeira de plástico, com os vendedores de ouro e prata ou com a criança dormindo em três assentos em um casamento, Bad Bunny mostrou ao mundo1 práticas que pareciam individuais, mas que são universais para os latinos.
O cantor porto-riquenho relembrou aquilo que sempre foi natural para nós.
Quando pessoas de lugares diferentes, espalhadas pelo mundo, se enxergam em um só artista, é possível ver que existem experiências compartilhadas, mas que, até então, não estavam claras. O caso mais gritante foi o do Brasil, que, por falar outra língua, não se percebia como parte dessa discussão sobre latinidade.2
Para começar, é até um pouco difícil discutir o que é América Latina, afinal, foi a Europa que deu o nome, alterou a cultura e trabalhou no apagamento da memória dos ancestrais que por aqui viviam antes da chegada das caravelas.
Porém, apesar dessa discussão ser muito importante atualmente, não é sobre um passado apagado que canta Bad Bunny. O porto-riquenho quer apresentar ao mundo o que está acontecendo agora: o presente.
Um dos homens mais famosos do mundo e, inegavelmente, o cantor mais popular da atualidade, Bad Bunny, ou Benito Antonio Martínez Ocasio, alcançou o topo porque estava no lugar certo e na hora certa. Com roupas espalhafatosas e uma sonoridade que misturava o hip-hop pasteurizado do trap ao balanço do reggaeton, conquistou o interesse da indústria fonográfica.

No entanto, quando percebeu que estava sendo ouvido, trouxe para o centro do palco aquilo que havia de mais afetivo em sua própria memória musical. Usou ritmos e gêneros enraizados na cultura de Porto Rico, apresentou-se da forma como sempre falou, em sua língua nativa, e liderou um movimento que ampliou o olhar do mundo para além do que tradicionalmente fazia sucesso na música latina. Convidou o ouvinte a retornar à origem.
Ele começou a carreira seguindo tendências e, depois, criou uma tendência própria ao perceber que o palco que tinha poderia trazer uma perspectiva de vivência, experiência e ancestralidade que era própria, mas, ao mesmo tempo, coletiva.
Quando foi anunciado como atração do show do intervalo do 60º Super Bowl, falava-se muito sobre sua popularidade. Porém, a apresentação cravou o motivo dele ter sido escolhido: Benito estava ali no papel de representante.
No entanto, o que ele representa é muito maior do que o tal: “jeito latino”. Bad Bunny, de certa maneira, incorpora a identidade Neotropical. Ele não importa estéticas, soluções ou narrativas do Norte Global. Pelo contrário, quando assume o intervalo de um dos maiores eventos norte-americanos, canta em espanhol e apresenta a própria cultura para mais de 135 milhões de pessoas, ele não apenas deixa de importar referências. Ele passa a exportá-las.
A região Neotropical se refere aos trópicos americanos (ou América Tropical) e compreende desde a região Central do México até a Argentina, incluindo todas as ilhas do Caribe. Uma área que tem abundância e múltiplas formas de existência.
Benito mostrou essa abundância de vida e o calor Neotropical em um país que vivia a pior onda de frio dos últimos anos3. Enquanto as ruas dos Estados Unidos estavam branquinhas de neve, o mundo falava do milharal humano que o artista plantou no Levi’s Stadium, em San Francisco.
Após o show, tudo fez sentido. Existe uma unidade Neotropical na instância cultural. Quando Bad Bunny cita Porto Rico, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela e Guiana, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Cuba, República Dominicana, Jamaica e Antilhas, México e até Estados Unidos e Canadá, o cantor fala sobre algo em comum nessa vasta vida que existe na região. Benito soube representar essa natureza abundante e que antes de tudo faz parte da nossa vivência.
Portanto, não está na moda ser latino, está na moda ser Neotropical. Aqui, nos divertimos juntos, sabemos fazer festas e aquecemos qualquer ambiente que entramos. Somos uma região feita de vida e a que mais concentra vida no planeta.
Não faz sentido trazer neve e Papai Noel quando temos o melhor verão do mundo; não faz sentido que as abóboras de Halloween sejam o foco quando nossas árvores estão coloridas e florescendo. Bad Bunny mostrou ao mundo o traço cultural que nos une, e agora é apenas uma questão de tempo. Todos vão querer ser como somos.
Mais do que a América, nós somos o Neotropical.
Coluna Conversa para o Futuro
por Pedro Ibarra.
Benito Antonio Martínez Ocasio presenta El espetáculo de medio tiempo del Súper Tázon
Normose: O vídeo analisa a formação histórica e contraditória da identidade latino-americana, mostrando como o conceito foi criado a partir de interesses imperialistas europeus e, posteriormente, apropriado como estratégia de resistência política e cultural. Também explica por que o Brasil, por meio de um projeto histórico de “excepcionalismo” e distanciamento linguístico e geopolítico, se afastou dessa identidade (apesar das profundas semelhanças culturais e sociais que compartilha com os países vizinhos).
Estados Unidos enfrentam onda de frio histórica, com temperaturas mínimas que podem chegar a -45 ºC. Matéria g1




